quinta-feira, 10 de março de 2016

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Carta ao meu filho homem no Dia Internacional da Mulher

Henrique,
Escrevo-te em 2016, quando os teus 11 anos ainda não te permitem entender o poder das efemérides. Escrevo-te para que, daqui a uns anos, não continues sem perceber a diferença entre, por exemplo, o Dia do Pai ou da Mãe e o Dia da Mulher. Parecem iguais, não é? Ambos implicam gastos com prendinhas, cartões ou jantares, e nenhum dá direito a feriado, embora possam ambos conferir, como privilégios, um pequeno-almoço na cama ou outros mimos extra. Mas são diferentes, sabes? Dias como o do Pai ou da Mãe são, simplesmente, pretextos para reconhecer o lugar que determinadas pessoas, à partida, ocupam na vida de todos. À partida porque, como já sabes, pelas notícias que vês, ouves, lês e não podes ignorar, há pais e mães que não estão à altura de o ser, que não protegem, educam ou amam os seus filhos. Adiante. Estes dias são de acarinhar porque, na espuma dos dias, esquecemo-nos frequentemente de tirar um minuto para exercer esse direito-dever tão bom que é o da gratidão. No entanto, lembra-te sempre, um cartão, presente ou jantar não substitui os gestos de atenção diários, o beijo de boa-noite, o telefonema no fim-de-semana, a companhia na consulta no hospital, a paciência afectuosa quando a idade já não perdoa e os pais se tornam quase filhos. Lembra-te disto mesmo quando eu não me lembrar, sim, filho?
... e o Dia da Mulher?
Pois, aí a justificação é outra, e ainda mais séria. Eu sei que, sendo homem, não preciso de te pedir que, por favor, não banalizes um dia destinado a lembrar uma luta de séculos - passados, presente e vindouros -, com jantarinhos histéricos ou sessões de striptease masculino. 
Mas, sendo homem, espero que tenhas sempre presente que o Dia da Mulher se destina a marcar, a reivindicar, em pleno século XXI, a paridade entre os géneros. E aí, meu filho, não é por seres homem que o assunto não te diz respeito, bem pelo contrário. Este dia, que nasceu da luta de mulheres corajosas e sofridas, pelo direito a salários iguais aos dos homens, já que o trabalho era o mesmo, merece que juntes os teus braços e o teu coração a esta causa. O que pensarias, mesmo com os teus 11 anos, se a tua colega de carteira, que como tu acertou todas as respostas do teste, tivesse uma nota mais baixa do que a tua... por ser rapariga? E se lhe dissessem, como em tantos países por esse mundo fora, que não podia continuar a estudar... por ser rapariga? E se ela se tornasse tua namorada e tivesse de pedir-te autorização para sair, conduzir ou trabalhar? Imagino a tua cara, filho, perante estas enormidades. E, no entanto, neste preciso momento, há, até no teu país, no nosso país, de que tanto nos orgulhamos e que há muito consagra, na lei, a igualdade de géneros, muitas mulheres a receberem menos do que os homens que, ao seu lado, fazem exactamente o mesmo trabalho. E continuam a ser as mulheres que, apesar de estarem em maioria nas universidades, menos representadas estão nos cargos de topo das empresas, das academias, dos órgãos políticos. 
Este Dia Internacional da Mulher é para lembrar que esta luta é diária e é minha e tua e das filhas e filhos que podes vir a ter. É de todos. 
Ninguém trabalha, gere, ensina, cuida ou serve condicionado pelos órgãos sexuais, não é? Então por que razão deverá ser julgado ou limitado em função deles? Um dia, talvez esteja nas tuas mãos uma decisão de trabalho que te ponha à prova perante a questão: este homem ou esta mulher? A resposta é só uma, e sei que a encontrarás e, com ela, me honrarás também: quem tiver mais mérito. Seres esse homem, filho, será a melhor prenda do Dia da Mãe de sempre.

Andreia Gouveia



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