sexta-feira, 3 de agosto de 2018

TRÊS DE AGOSTO O DIA QUE O DITADOR CAÍU DA CADEIRA

JÁ LÁ VÃO 50 ANOS
O presidente do Conselho olha a barra do Tejo e deixa-se cair sobre uma velha espreguiçadeira de lona que se partiu aos bocados. Salazar bate com a cabeça no chão. O calista, obrigado a jurar que nem uma palavra diria sobre o acidente, ajuda-o a levantar-se e a sentar-se noutra cadeira.

Salazar era visto pelo seu médico assistente, professor Eduardo Coelho, de duas em duas semanas. A próxima visita seria daí a dois dias. Só então o chefe do Governo, ainda no forte, lhe contou que tinha batido com a cabeça no chão.

O médico não adivinhou nada de bom. Salazar, de 79 anos, não tinha uma saúde de ferro. O professor Eduardo Coelho terminou a consulta preocupado. E deixou ao chefe do Governo um sério aviso: mandasse chamá-lo ao mínimo sintoma. Salazar volta ao trabalho. Queixa-se de dores de cabeça e arrasta ligeiramente a perna direita. Ainda assim, não manda avisar o médico e mergulha obstinado numa complexa remodelação do Governo.

O Governo reúne-se pela primeira vez em 3 de Setembro. Salazar está pior. Não fala, limita-se a ouvir. Está pálido e curvado. Os ministros abandonam a reunião convencidos de que ele está muito doente. Apenas em 5 de Setembro, o presidente do Conselho resolve chamar o médico. Eduardo Coelho percebe imediatamente que o traumatismo craniano tinha provocado um hematoma.

Salazar teria de ser operado, o mais tardar, no dia seguinte. O médico pede ao filho Eduardo Macieira Coelho, também ele médico, para procurar o neurocirurgião Moradas Ferreira. “Veja lá se é alguém da Situação” – avisa a fiel governanta do velho ditador, Maria de Jesus. Moradas Ferreira está incontactável, de férias na Madeira.

É chamado outro cirurgião: Álvaro Athayde, director dos serviços de neurocirurgia dos Hospitais Civis de Lisboa, que observa Salazar, em 6 de Setembro, e decide interná-lo. Ainda nessa noite, Salazar é submetido a exames nos hospitais de São José e dos Capuchos. Está cada vez pior: não consegue responder às mais simples perguntas e nem se recorda em que Universidade se formou. Os médicos decidem operá-lo imediatamente.

O sexto piso do Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, é evacuado. O presidente do Conselho, às 23h00, dá entrada no quarto 68. A operação, conduzida por dois neurocirurgiões, Vasconcelos Marques e Álvaro Athayde, terminou com êxito ao nascer do sol.

Nos dias seguintes, o presidente do Conselho passeia pelo quarto e conversa. Ganha vida. Mas, a 16 de Setembro, sofre um profundo acidente vascular do lado direito do crânio. Fora operado do lado esquerdo para trepanação do hematoma.

Entra em coma profundo. Os médicos perdem esperança. A morte é esperada a todo o momento. Manuel Nazaré, médico e amigo pessoal de Salazar, ficou convencido de que o rebentamento da artéria cerebral se deveu aos copinhos de vinho do Porto e de Aveleda que o presidente do Conselho tanto apreciava e a governanta lhe deu às escondidas nos dias que se seguiram à operação.

Os médicos, agora, não têm a mais pequena dúvida: mesmo que sobreviva à trombose, Salazar ficará inválido. Américo Tomás, convoca o Conselho de Estado para o dia 17. Os conselheiros estão divididos quanto ao sucessor. De todos candidatos, Marcelo Caetano, catedrático de prestígio, é o mais ambicioso e o que tem mais experiência política.

Américo Tomás convida-o, na noite de 26 de Setembro, para formar Governo. Dá-lhe posse no dia seguinte. Salazar sobrevive à trombose, mas fica muito debilitado. Abandonou o Hospital da Cruz Vermelha e regressou à residência oficial de São Bento.

Ninguém lhe disse que estava reformado e já não era chefe do Governo. Continuou a viver na residência oficial e recebia antigos ministros, que faziam de conta que ainda mandava. A farsa durou 20 meses. Terminou com a morte, na manhã de 27 de Julho de 1970. Tinha 81 anos.


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