quinta-feira, 18 de março de 2021

CONFIAI-VOS UNS AOS OUTROS

CONFIAI-VOS UNS AOS OUTROS

 A “malta da ferrugem” começava a chegar ao estaleiro por volta das sete e meia. Às oito horas já estavam na bancada ou em cima do andaime. Chegavam de motorizada, de bicicleta, e já havia um ou outro que vinha de carro. A maior parte vinha das freguesias do norte, mas também os havia de Vila Verde e de Quiaios, e alguns até de Montemor e das freguesias do sul.

 A embarcação estava em seco. O casco rodeado de andaimes e uma grande rampa ligava o exterior á amurada e esta ao futuro convés, e dava acesso ao interior. Trabalhavam nela duas equipas. No interior colocavam os motores na casa das máquinas, dividiam o porão e assentavam as traves para apoio do convés. Do exterior soldavam, rebitavam e alisavam as chapas, e preparavam a pintura de proteção. A rampa dava acesso aos do interior, que depois, desciam para o porão. Os do exterior acediam pelas escadas para os andaimes inferiores e daí para os andaimes superiores.

 Estávamos em Agosto e o calor do sol era permanente e impiedoso. E muito potenciado pelo lume da solda, pelas chispas da rebarbadora e pela exalação de tudo quanto era ferro. Bebia-se muita água. Para chegar á água, descia-se o andaime, atravessava-se um pátio, que num extremo tinha um poço seco. Nesse poço havia um nicho com sombra permanente, onde estava um cântaro de barro preto. Acedia-se ao poço por umas escadas e um rebordo de pedra circulava em patamar junto ao nicho o que permitia, a quem viesse, sentar-se, descansar, ou fumar uma cigarrada, antes de voltar ao trabalho.

 Ao som ritmado de lixadoras e martelos; com a música intermitente (e irritante) das rebarbadoras; nos silêncios coloridos das tintas e com as luzes feéricas (e encadeantes) dos maçaricos, os homens vestiam a embarcação para noivar com os oceanos. Para que outros homens, mais tarde, recolhessem, a golpes de rede, os frutos desse noivar.

 Mas deixemo-nos de lamechices poéticas e volvemos á historia. Um dia, a azáfama foi maculada. O que foi, o que não foi, perguntava-se! Soube-se então que o Vila Franca apareceu com “herpes labial”. E viram-no no poço a beber água pelo cântaro. “Herpes labial uma porra. Aquilo era coixo (ou peçonha), e pega-se”; dizia o velho Barbosa, calafate reconvertido em serralheiro, e “entendido” em doenças.

 O Vila Franca não era dali. Como o nome indica era de Vila Franca, e a “malta” não o conhecia bem. Uns diziam que tinha vindo com a maré, outros que veio aos touros e ficou. Rapaz novo, educado, trabalhador e de poucas falas, foi admitido como um deles. “E agora faz isto á gente. Malandro!”.

 Rapidamente se espalhou a notícia e perguntava-se, em surdina:- “Como é agora com a água?” Um núcleo restrito reuniu informalmente para responder á questão. O que fazer? E foi o Nestor que deu a solução. Como o cântaro estava esbotenado de um lado, a “malta” bebia pelo lado esbotenado até o Vila Franca ficar bom. Foi em surdina que se espalhou o proceder e com alívio que se desmaculou a azáfama. Regressou a normalidade até que…

 Dois dias depois, o Pimenta, o encarregado, descia as escadas do poço para se dessedentar, e viu o Vila Franca de cântaro na boca. O Vila Franca, sentindo alguém por detrás, virou-se: gentilmente estendeu o cântaro ao Pimenta e disse:- Ò chefe! Pode beber á vontade. Como está a ver eu, desde que tenho a boca assim, bebo sempre do lado esbotenado.

 Nelson Fernandes

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