sábado, 17 de abril de 2021

RECORDAR É VIVER...INAUGURAÇÃO DO NICOLA

No dia 1 de Abril de 1940 foi inaugurado o Café Nicola, no Bairro Novo, na Figueira da Foz, propriedade de Raul Lourenço Rainha, Manuel da Piedade e Vítor Pais, no mesmo espaço onde tinha funcionado o Casino Hespanhol.

 Durante largos anos foi um dos cafés mais emblemáticos da Figueira da Foz. Possuía inicialmente 104 mesas e 52 empregados, atrações variadas e um salão de bilhares frequentado pelos melhores bilharistas nacionais nos anos 50 e 60.

 Um café de muitas recordações, música ao vivo, tacadas ruidosas, muitas mulheres, sobretudo estrangeiras, num tempo em que se mudava três vezes de "toillete" - uma para ir à praia, outra para passear pelo Picadeiro e uma terceira para as noites festivas do Casino.

 O Nicola saciava a fome do alvorecer, quando os veraneantes saídos do Casino se entregavam a um bife à café. Pela manhã servia-se o abatanado, seguiam-se conversas sem fim, crochets, leituras de jornal e jogos de xadrez com Beja da Silva, Jorge Babo, Jorge Arriegas, Edmundo Barrué, entre outros, cercados por assistência atenta e deslumbrada.

 Nos anos 60 era gerente o Senhor Piedade, a Dona Rosa a encarregada das compras, o Senhor José de Matos o chefe da cozinha, o Carlos Melo o responsável do balcão, o Silvino, o António e o Abel Matateu, empregados de mesa, reforçados no Verão com sete colegas.

 Mas, em 1971, a Inspeção Sanitária encerrou o Nicola, reabrindo em junho de 1972, sem as mesas de mármore, sem o piso incerto, sem a sala de bilhar, sem o balcão muito alto, mais moderno, sem pessoas, que começaram a descobrir o Algarve.

António Jorge Lé, em artigo publicado no Diário de Coimbra de 20-09-2017, recorda-nos o Café Nicola de outros tempos:

 “Os anos passaram e o prestígio do Nicola cresceu. O êxito do bife, a esquina do Picadeiro, embelezada pela esplanada, alinhada com estrado em madeira, onde senhoras e cavalheiros saboreavam capilé (sem corantes nem conservantes), salsaparrilha, mazagran ou mesmo um pirolito… sem bola! E cerca de cem quilos de café por semana, conforme as requisições.

 Mais uma década e o romantismo, envolvência e história do Nicola a pesar no turismo figueirense.

 Nas mesas, em serviço, nomes como Silvino e Abel “Matateu”, entre outros, ao som da Orquestra Ginásio, pontificavam.

 No início dos anos 70 do século passado foi demolido, dando origem a novo edifício com a mesma designação.

 O novo Nicola, construído de raiz, foi inaugurado em 1972, a um sábado de Junho, após profundas obras de remodelação (em apenas um ano), pelo então governador civil, presidente da Câmara, José Coelho Jordão, e por António Mendes do Amaral.

Usou também da palavra Francisco de Freitas Lopes, distinto empresário local e que ali representava a sociedade proprietária.

 Apresenta-se como café (com muito menos mesas) e restaurante, tendo na Cozinha o chefe Rosado.

O número telefónico 22359, discado com o cerimonial rotativo do dedo, não ia ter ao Nicola… era atendido na Albergaria, por vezes pelo gerente José Sopas ou pela Margarida Avelino.

 O café, na porta ao lado, estava à pinha! O António Eleutério servia, sem esquecer nenhum pedido, as bicas do jantar, algumas com “cheirinho”, outras acompanhadas com o pequeno balão, riscado a azul, onde era entornado um aquecido Macieira.

Nas prateleiras de vidro, os bolos, confeccionados na Sofico, iam quase todos, restavam duas ou três natas quando havido matinée no cinema.

 Antes, o Lino, nos bilhares, abria com a chave a caixa das bolas e fornecia os tacos... para além do giz azul para uma boa carambola.

Carlos Melo e Adelino olhavam para as equipas da noite, já que Filipe assegurava o turno diurno.

 Nas mesas redondas, as conversas desfiavam-se em novelos de convívio e prazer, algumas de política até como preparativos locais das tropas do C.I.C.A. 2 e R.A.P. 3 para a operação do 25 de Abril.

 A Ti Celeste dos jornais, sentada nos degraus, ao frio, de luvas velhas e gastas, esperava p’la A Capital, que às vezes tinha problemas nas máquinas e não chegava…

O António ‘Cauteleiro’ insistia na taluda, com as fracções penduradas na mão e agarradas com uma mola preta.

 O Abel tratava de engraxar sapatos. A sessão do Peninsular terminava e aí vinha outra pequena multidão.

Olhava-se para o relógio e eram 23h30. Estava cheio! O filme era de cowboys, com John Wayne, como se lia no programa da tipografia do Tonó.

 Para baixo já havia passado o Quim Charlot e o Batista, de camisola vermelha às costas. Eram os protagonistas da noite, quem enrolava as bobinas de celulóide e projectava a película, após o gongo ter dado o sinal de início da sessão.

Saíam ainda o fiscal Paulo Monteiro e o genro, João ‘Padre Nosso’, que ainda substituía o cartaz … para amanhã! A D. Leonor, de alvo cabelo e metódica organização, saía mais cedo, após o fecho da bilheteira.

 Em 1995 novas obras restauram o Nicola. Ei-lo, ainda, às portas do Picadeiro”.

 O velho Nicola morreu, só existe nas nossas memórias.

Texto e Fotos da publicação de Fernando Curado no Faceboock

(Para aumentar o zoo das fotos clicar em cima das mesmas) 

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